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Núcleo de Pesquisa Teatral
Abílio Guedes

:: Entrevista :: JC SERRONI ::

Arquiteto, estudou com o coreógrafo Flávio Império. Principais cenários: Paraíso Zona Norte (1989), Macbeth - Trono de sangue (1992), Vereda de Salvação (1993), Gilgamesh (1995), Rei Lear (2000). Principais influências: os cenógrafos Flávio Império e Joseph Svoboda e os artistas plásticos Magritte e arthur Bispo do Rosário.

Questiona-se muito o papel da cenografia no teatro. Na sua opinião, a cenografia é dispensável em um espetáculo?
José Carlos Serroni - O teatro é um conjunto e quanto mais coisas estiverem reunidas o resultado do espetáculo é melhor. É claro que o papel principal é do ator. Sem o ator não existe a relação como público, por isso, em alguns espetáculos, você pode não ter uma cenografia tão grande. Mas é importante dizer que a própria caixa preta do teatro tem uma cenografia. Imagina você trabalhar um ano no espetáculo e chegar à conclusão de que o palco tem que estar vazio. A ausência da cenografia é a coisa mais difícil de fazer; essa síntese de chegar ao nada e valorizar os atores tem que ser assinada por alguém e esse alguém é o cenógrafo, que responde junto com o diretor e todos do grupo pela montagem.

Há uma tendência em se fazer um teatro de “Broadway”, com grandes produções. Isso é favorável para a cenografia?
JC Serroni - Tem lugar para todo tipo de teatro, o teatro de Broadway, dos musicais e das grandes produções. Particularmente, gosto de fazer o teatro de texto, o teatro de ator, de interpretação, que deixa alguma coisa para o público, que faz as pessoas pensarem. O teatro da Broadway feito em Nova York e em Londres mostra um aparato tecnológico e todos os efeitos. Isso é muito bom, mas não pode ser utilizado como parâmetro. Mas apesar disso, temos que levar em conta que esse tipo de espetáculo é interessante quando se torna um primeiro estímulo para que as pessoas busquem algo de mais conteúdo.

É possível prever o futuro para a cenografia?

JC Serroni - Vivemos em um momento de transição, no qual a tecnologia vem chegando para valer. Em seminários e encontros, discutimos muito sobre qual seria o cenário ideal para o terceiro milênio. Mas isso é uma incógnita. Não sabemos aonde vamos chegar, se só na computação ou se vamos voltar para trás um pouco. Acredito que esse seja um tempo de pausa para a tecnologia chegar ainda mais forte. O que não podemos é que tudo isso chegue e esfrie o espetáculo, e o teatro fique muito técnico e muito matemático.
Nos tempos de Shakespeare, quando os atores diziam “estamos no deserto durante o dia”, as pessoas imaginavam e acreditavam que aquilo era um deserto. Hoje, o problema é que para isso acontecer você precisa colocar toneladas de areia e camêlos em cena para que as pessoas “acreditem” que estão vendo o deserto. Por isso, precisamos tomar cuidado para que a cenografia e o espaço visual não virem o próprio espetáculo. Queria muito que a gente não se perdesse e chegássemos na essência do teatro.

O que é necessário para seguir a carreira de cenógrafo?
JC Serroni - A primeira coisa que a pessoa precisa é ter paixão pelo teatro e tem que ir atrás e tentar se formar de alguma maneira. Aqui no Brasil, a gente tem dificuldades porque tem poucas faculdades de cenografia; conheço apenas duas no Rio de Janeiro e alguns cursos experimentais em São Paulo. Minha pouca, mas proveitosa, experiência no teatro amador e meus trabalhos em escola de samba foram fundamentais. É preciso saber aproveitar todas as oportunidades.

Como fica a cenografia diante de um teatro que, cada vez mais, a coloca no segundo plano em favor do ator?
JC Serroni - (Antonio) Abujamra me dizia que se impressionava, no final dos anos 50, quando via o palco vazio, três cadeiras e três atores, e enxergava naquilo uma cenografia imensa. Eu concordo com ele. Ir em busca da síntese, do nada, é difícil, é necessário um requinte absoluto. Se o palco está uma caixa preta, não significa que aquilo não foi pensado pelo diretor e pelo cenógrafo. Naquele volume, aparentemente vazio, tem milhares e milhares de pontos de verticalidade, de linhas, e você cria a cenografia com outras coisas, com o movimento do ator, as luzes, até com a sonoridade.

Mas esse “vazio” no palco às vezes é mais por falta de recursos do que conceitual.
JC Serroni - O teatro, como o País, vive uma crise que não é só conceitual, é econômica, e isso me entristece. Mas acho que essa falta de recursos, que tem levado ao empobrecimento, acaba se revertendo em enriquecimento.

Como?
JC Serroni - Porque a partir das dificuldades se acaba encontrando soluções que às vezes, com dinheiro, não se encontraria. Lembro quando o Antunes (Filho) fez “Macunaíma”. Ele ficou quase dois anos na busca de caminhos, fez de tudo na cenografia, e chegou na caixa preta, vazia, sem nada, que era o que interessava. Quando o cenógrafo trabalha com um diretor que têm a visão de um teatro com mais conteúdo, de profundidade, em que você não tem de ser realista, narrativo, mas pode trabalhar com signos, com símbolos, dá para ir para uma coisa muito mais abstrata, muito mais simples, e isso é bom para o teatro.

A essência.
JC Serroni - Acho que a busca da essência, da síntese, do nada, de você dizer tudo com pouquíssimos elementos, é que é o valor do teatro. O teatro trabalha relações, propõe relações outras que não só o espaço, a cenografia, o figurino. O teatro fala por outras vias, vive desses códigos, dessa representação, do faz-de-conta, de você imaginar.

A cenografia deve sempre servir ao ator?
JC Serroni - No meu curso de cenografia em São Paulo, temos os 10 mandamentos do cenógrafo, que é uma brincadeira, e o primeiro mandamento é “O essencial na realização do espetáculo é o ator”. Quer dizer, tudo o que a gente faz tem de estar a serviço dele, porque o ator é o único elemento no teatro sem o qual não existe espetáculo. Você pode não ter uma direção, uma luz, uma cenografia, mas sem o ator... Por isso até que, em um projeto cenográfico, se não tiver de ter nada, para mim está ótimo. Não tenho essas vaidades. Já fiz muita coisa “vazia”. Claro, em musicais, óperas, e mesmo no teatro muitas vezes a cenografia entra como recurso a mais.

Os espaços alternativos vêm para resolver esta questão da falta de recursos, oferecendo-se como soluções criativas?
JC Serroni - Vejo isso como algo muito positivo. Ao buscar espaços alternativos, de se apropriar de espaços não-convencionais, de trabalhar com a simplicidade no palco, a gente pode ir abolindo essa coisa da maquinaria teatral. Teatro você faz no banheiro da sua casa.

E o outro lado, o da tecnologia. Como você vê o papel da tecnologia no teatro moderno?
JC Serroni - Eu brinco que a gente faz teatro com nada, com jornal, com sucata, com restos, transformando coisas velhas, mas em certas situações você precisa de tecnologia, para o bem do espetáculo, para o bem da cenografia. Mas é preciso visualizá-la com olhar crítico, porque se a tecnologia chega de qualquer maneira, ela pode transformar o teatro em uma coisa mecânica. Vão chegando essa iluminação, essas mesas computadorizadas, esse moving light. Se você não tiver controle, essas coisas todas engolem o espetáculo, e você passa a fazer uma parafernália tecnológica que não interessa.

Há um diretor com o qual você tenha se afinado mais nestes 30 anos dedicados ao teatro?
JC Serroni - Quase todos os trabalhos que eu realizei com o Antunes (fizeram juntos 14 espetáculos), têm dado muito certo, porque o Antunes valoriza o ator e após esses anos todos eu sei o que ele espera da cenografia. A maioria dos cenários do Antunes que eu fiz tem contorno, coisas aéreas, elementos que passam, entram, saem. O palco sempre está livre, o piso do palco é do ator, ali você não pode interferir, atravancar, criar obstáculos, aquilo ali é para ele. A cenografia, para o Antunes, pede sempre essa limpeza.

Você começou no teatro profissional criando cenário para espetáculo infantil e tem recebido muitos prêmios por trabalhos relacionados a esse gênero. A cenografia no teatro para crianças é mais difícil, por lidar com imaginário, com o lúdico?
JC Serroni - Cenografia para o teatro infantil precisa ter a preocupação de que se está formando cabeças, formando público para o teatro futuro. Acho que possível envolver mais a criança quando se vai para o lado da poesia, do lúdico. Se você vai para o lado da televisão, faz coisa da Xuxa, da Turma da Mônica, isso não interessa, porque ele já vê e vê feito de maneira muito mais precisa e bem-feita do que a gente faz no palco. O que interessa no teatro é recuperar aquilo pelo menos eu tive quando criança, o jogo, a brincadeira, o faz-de-conta.

Você não pensa em dirigir?
JC Serroni - Coloquei na minha cabeça que iria fundo na cenografia e por ela tenho ainda muito a fazer, a aprender e a ensinar também. A cenografia é muito mais carente. Agora estou tentando apoio para um livro sobre a história da cenografia brasileira, quero fazer um livro técnico, de processos construtivos, são coisas que eu posso deixar, e com muito mais segurança. Mas dirigir pode ser uma aventura gostosa, que um dia eu sei que vou fazer. Trabalhei com grandes diretores de ator, Fauzi Arap, Aderbal (Freire Filho), Antunes, Abujamra, e aprendi muito, mas acho que teria dificuldade em dirigir o ator.

Matéria publicada no:
Estadão.com de 15/02/200
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:: Entrevista :: Tadashi Endo ::

Coreógrafo de dança Butô dirigiu o espetáculo Shi-Zen

Como foi a sua experiência de casar o butô com o corpo brasileiro?
Antes de mais nada, devo dizer que eu mesmo me perguntei o que representava o Brasil para mim. Num primeiro momento, as respostas que surgiam eram relacionadas a aspectos triviais: Brasil, clima agradável, boa comida e pessoas muito gentis. Em seguida, me vinha em mente o temperamento brasileiro, muito diferente para mim. O que me chamava a atenção e o que os meus olhos viam era o excesso na corporeidade, o tempo todo ação, o tempo todo algum movimento para algum lugar ou em função de algo; o tempo todo. Nunca havia silêncio, quietude ou imobilidade. Então o tempo todo havia alguma "música". Isso é agradável de ver, e eu aprecio, me dá prazer. Mas, quando eu ministrei um workshop pela primeira vez no Brasil, em 2002, percebi, no decorrer do trabalho, o quanto as pessoas se concentravam e, então, surgiram, e eu pude perceber, nuanças absolutamente diferentes da imagem primeira que eu tinha dos brasileiros. Então eu pensei: sim, talvez algum sentimento de melancolia ou tristeza haja por por trás do temperamento repleto de movimentos energéticos.

Pensei: ao trabalhar com o Lume, eu devo criar não sobre a linha básica do butô, não uma peça de butô, eu devo criar simbolismos pessoais para cada um dos intérpretes. A corporeidade brasileira, ou a corporeidade japonesa, ou norte-americana, ou alemã, hoje, têm muitas semelhanças.

A parceria com o Lume (a dança e o teatro de outra cultura) é própria da natureza do butô, dessa arte que está "entre", que é o "ma". Como o sr. define, uma arte que não enxerga fronteiras?
Sobre este tema fundamental em meu trabalho: o "butô ma", o "estar entre", é, evidentemente, muito importante para mim e está diretamente conectado com minha vida, porque minha vida é "estar entre". Eu nasci em Pequim, com cidadania japonesa. Fui para a Europa, como japonês. Vivo atualmente na Alemanha, mas o que faço (a minha criação artística) não é fruto da cultura alemã ou européia, e sim da experiência, do conhecimento e da vivência da cultura japonesa.

E quanto à música? O que achou da fusão com ritmos brasileiros?
Pedi aos atores que cantassem algumas canções daqui. Uma delas, embora eu não tivesse entendido absolutamente nada da letra, me encantava melodicamente. Essa canção me remetia a algo, não exatamente japonês, mas algo relacionado à minha infância. Ao tomar conhecimento do que dizia a letra, fiquei muito surpreso, pois era exatamente o que eu buscava: a imagem de um pássaro cego ["Assum Preto", por Luiz Gonzaga].

Matéria publicada na:
Folha de São Paulo em 15/04/2004

:: Entrevista :: Ednaldo Freire ::

Ednaldo Freire é ator, diretor e cenógrafo. Em parceria com o dramaturgo Luis Alberto de Abreu, criou o Projeto de Pesquisa da Comédia Popular Brasileira e a Fraternal Cia de Artes e Malas-Artes. Atualmente ocupa o Teatro Paulo Eiró, em São Paulo, e está em cartaz com as peças Borandá e Auto da Paixão e da Alegria, sucessos de crítica e público.

O que despertou o seu interesse pelo teatro?
Em 1968 eu era estudante secundarista em S. Bernardo do Campo, ABC paulista. O País vivia um período de grande efervescência política. O ato institucional número 05 havia sido decretado, mostrando a face mais terrível da ditadura militar. Um período negro que durou quase 20 anos de arbitrariedades censura e violação dos direitos civis. Como jovem militante do movimento estudantil dois caminhos se mostravam: Ou a luta armada ou a resistência em outras atividades. Foi diante deste quadro histórico que o teatro surgiu em minha vida. Em São Paulo, o Teatro de Arena e o Grupo Oficina revolucionavam a cena brasileira. Os ecos desses grupos chegaram até nós como importantes referências para nossas propostas ideológicas.

E a vocação para a comédia?
A opção pelo gênero cômico veio como necessidade de uma estética de aproximação a um público popular. A cultura popular é celebrativa, ambivalente e gregária. Muito mais próxima da participação coletiva.

Assim como as personagens de Borandá, que conta a saga de três migrantes chegando em São Paulo, você também veio de longe: Buique, uma pequena cidade em Pernambuco. Enfrentou alguma dificuldade ao vir para São Paulo e optar pela carreira artística?
Sou migrante sim, meus pais aqui chegaram em 1954, assim como tantos outros, vindos das diversas regiões do país em busca de trabalho. Nesta época eu tinha apenas 05 anos, a carreira artística surgiu muito mais tarde.

Conte-nos um pouco de sua experiência com o Grupo Mambembe, nos anos 70, e de sua parceria com o dramaturgo Carlos Alberto Soffredini.
Em 1975, o dramaturgo Carlos Alberto Sofredini, fazia uma investigação sobre o circo teatro e a revista musical brasileira. Patrocinado inicialmente pelo SESC, reunia então vários artistas que se identificavam com sua proposta, para integrar o que seria mais tarde o Grupo Mambembe. O Mambembe durou 10 anos e ajudou a escrever um pouco da história do teatro popular brasileiro.

Você já formou grupos teatrais com funcionários de empresas como Siemens, Petrobrás e Banco Safra. Como surgiu essa idéia e que frutos ela gerou?
Sempre gostei do trabalho em grupo. Ter implantado grupos de teatro nas empresas além de uma opção de sobrevivência, foi também uma maneira de mostrar que o teatro pode ser território de todos e não somente dos chamados ´´artistas profissionais´´. Alguns desses trabalhos geraram bons frutos como O Banco Safra, que mantém há 10 anos um conjunto de amadores formado por mim, sem falar no Grupo da Siemens, que se profissionalizou transformando-se mais tarde na Fraternal Companhia.

O Projeto de Pesquisa da Comédia Popular Brasileira, criado com a parceria de Luis Alberto de Abreu, visa buscar na cultura popular brasileira personagens que correspondam a commedia dell’ arte italiana. O que o inspirou a idealizar esse projeto e como ele está sendo desenvolvido?
O que nos motivou a criar o Projeto Comédia Popular Brasileira, foi talvez o de manter a chama acesa da nacionalização do nosso teatro referendado pela riqueza de nossa cultura, retomando o fio iniciado lá atrás por Martins Pena, França júnior, Arthur de Azevedo e mais recentemente por Ariano Suassuna.

Como surgiu a Fraternal Cia de Artes e Malas-Artes, da qual é diretor?
A Fraternal Companhia de Arte e Malas Artes, surge em 1992, ano em que convidei o dramaturgo Luis Alberto de Abreu para criarmos um antigo projeto que ambos alimentávamos. Eu desenvolvia um trabalho com o grupo de teatro da Siemens e víamos ali terreno fértil para um projeto pesquisa. A partir de então o Grupo foi se profissionalizando tornando-se a Fraternal .

Recentemente, a Fraternal foi contemplada com o Programa Municipal de Fomento ao Teatro. O que vocês estão realizando a partir desse programa e como vêm ocupando o Teatro Paulo Eiró, em São Paulo?
Além da formação de platéia através de um repertório constante a Fraternal interage com a comunidade como forma de contrapartida, desenvolvendo oficinas de dramaturgia, interpretação cômica, dança Brasileira e cenografia além da revitalização do espaço e entorno.

Tendo em vista a sua experiência como diretor, ator e cenógrafo, você diria que fomentar o teatro é a solução para garantir sua sobrevivência e ampliar a divulgação dos espetáculos?
Nascido da ação dos grupos a partir do Movimento arte contra a barbárie, o programa municipal de fomento ao teatro é atualmente o mais importante modelo de política pública cultural, implantado neste país. Além da sobrevivência responsável dos grupos, dá a eles. a oportunidade de interagir com a comunidade na construção de uma cultura democratizada e participativa.

Quais são os projetos da Fraternal para 2004?
Para 2004 a Fraternal continuará mostrando seu repertório, além de trabalhar o encerramento dos ciclos das festividades populares Iniciadas com Sacra Folia e Auto da Paixão e da Alegria. Trata-se de ´´O Auto Junino´´, com estréia prevista para Julho. A Fraternal pretende também abrir o seu processo de trabalho para jovens artistas através de um curso integrado que unirá dramaturgia, interpretação e cenografia, gerando um espetáculo no final do ano. O curso será aberto e gratuito a interessados inscritos previamente.


Matéria publicada:
www.opalco.com.br


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Segunda-feira, Dezembro 03, 2007


Quando assisti em 2003 o espetáculo A Ópera do Malandro, um dos meus sonhos como ator era participar de um musical de qualidade, assim como aquela produção de Abílio Guedes. O que eu não poderia imaginar era que minha estréia no gênero seria numa mega-produção com cenas de 13 grandes sucessos da Broadway.

Dia 1° de dezembro de 2007. Um dia após o final da temporada de estréia de THE BEST OF MUSICALS em Campinas. Olho para 8 meses atrás e penso na proposta indecente que nos foi feita: realizar até o final de novembro, um espetáculo em comemoração aos 80 anos do Conservatório Carlos Gomes, reunindo todos os núcleos de artes da instituição. Atores, cantores e bailarinos, reproduzindo cenas das melhores peças da Broadway. Resumindo, aprender a dançar, cantar e interpretar em inglês.



A motivação já existia. A oportunidade estava batendo à minha porta. Durante quatro anos tinha me envolvido em pesquisas sobre os musicais da Broadway. Havia me encantado com as melodias de Cats, Jesus Cristo Superstar, O Fantasma da Ópera e outros mega sucessos. Nomes como Andrew Lloyd Webber e Bob Fosse passaram a figurar no meu dia-a-dia ao lado de Artaud, Grotowski, Barba, Peter Brook, Brecht e Stanislavski. Surgia agora o nome de Paulo Branco.

O diretor de The Best... chegou de mancinho. Contrariava aqueles que diziam ser impossível realizar um espetáculo desse porte cantando ao vivo. Reunia nas salas de ensaio cerca de quarenta pessoas batendo a cabeça uns com os outros e trazia em sua pasta um monte de letras de sucesso e na cabeça coreografias pra lá de difíceis. De repente eu estava com o número "57" no peito e tentando a sorte na audição realizada nas dependências do ccg. era o teste para The best of Musical.



Sabe-se lá Deus como eu continuava no grupo de The Best... começava ali uma maratona de ensaios, todas as quartas, sextas e domingos nos envolvendo nos caminhos mágicos que Paulo Branco nos apresentava. Surgia ai, talvez o principal ingrediente da química dessa produção: o nascimento da amizade entre bailarinos, atores e cantores.

Desde meus primeiros passos nos corredores do ccg sempre percebi uma certa distância entre os diferentes núcleos. Sempre houve, é verdade, diversas tentativas de reuni-los, porém mesmo realizando espetáculos como Os Saltimbancos e Sonhos de uma Noite Verão, água e óleo nunca se misturavam verdadeiramente. Existia sempre uma coisa tipo, "essa cena é do pessoal de dança..." ou "agora é o pessoal de teatro...".



Essa talvez tenha sido a principal realização de The Best... provar para todos os envolvidos, que apenas uma integração de verdade entre os três núcleos seria capaz de nós levar ao sucesso. A cola dessa integração se chama AMIZADE.

A cada ensaio a energia entre o elenco foi aumentando. Era cada vez mais comum presenciar a vibração e a alegria de todos, quando alguém se superava ao descobrir que conseguia alcançar uma nota musical, ou que o desenho de uma nova coreografia passava a traçar com empolgação não só quem estava dançando, mas também quem estava ao lado, esperando sua vez de entrar.

Mais uma vez Paulo Branco ia lapidando com paciência as jóias raras que estavam a sua disposição. Foi descobrindo em cada um o potencial escondido para brilhar em cena. Frequentemente dizia que se sentia responsável por todos e que não deixaria ninguém se passar por ridículo no palco. A confiança no seu trabalho aumentava com suas palavras de incentivo, mas se potencializava com as frequentes broncas quando não via o grupo se dedicar 100% com os ensaios.



No segundo semestre a "coisa" começou a tomar forma. O trabalho da direção musical assinado por Ademir Costa se tornava um desafio cada vez maior. A perfeição era o único objetivo em sua mente. Exaustivas horas de canto passaram a ser frequentes nas nossas semanas. The Best começava a ganhar sua cara de verdade. Cada nota de Seasons of Love ou Skid Row era rigorosamente analisada. Não sei ao certo se ao aceitar participar do projeto, Ademir Costa sabia o tamanho do trabalho que estava assumindo, mas não deixou em nenhum momento ninguém se entregar. Não se satisfazia com menos. Se precisasse refazer todo o ensaio a noite inteira, ficávamos repetindo e repetindo a mesma música até que alcançasse o que tinha planejado.

Para isso até os sábados passaram a fazer parte dos ensaios de The Best. Carol Blumer, a preparadora vocal do grupo cansou de repetir no piano as sequências do espetáculo. Transformar vontade em resultado parecia tarefa difícil, mas não impossível de acontecer. As folhinhas do calendário passavam cada vez mais rápido. As músicas começavam a ficar prontas. A magia parecia ganhar corpo quando de repente começaram a chegar os figurinos de dois gênios: Jesus Seda e Rodrigo Ferraz.



A cada semana novos figurinos, novos adereços e novos sonhos se tornavam realidade. Parecia que as promessas de Paulo Branco realmente estavam prestes a se tornar realidade. Meu Deus... o que eu estava fazendo no meio de tudo aquilo? Seria verdade mesmo que levaríamos ao convivência um espetáculo digno do que estávamos sonhando? A magia de Pippin e a beleza de O Rei Leão faria parte da nossa história? Não havia mais tempo para voltar atrás. era tudo verdade.

A partir dai não existia mais tempo para se desperdiçar. Os domingos não eram mais domingos se não alcançássemos a fadiga muscular. As salas de ensaio estavam cada vez mais cheias. Aparelhos de som, todo o elenco reunido horas e horas... chegamos a novembro.



Tudo o que pensávamos, tudo o que imaginávamos ou nos preparamos para a semana de estréia não foi o suficiente para realmente nos preparar para o maior desafio que estava por vir: A emoção. Devo confessar que foram mágicos. O Convivência se transformou na nossa casa por cinco inesquecíveis dias. Mas para a emoção, ninguém estava preparado.

Ver em cada gota de suor do grupo a realização de um sonho, não tinha preço. Cada vez que a cortina se preparava para abrir, ouvir o silêncio do elenco e equipe de produção significava ouvir o coração de cada um dizendo: hei... estou aqui... é verdade mesmo! The best of Musicals existe e eu faço parte desse sonho!!!



O que dizer de um espetáculo que além de preencher o palco com a magia dos musicais da Broadway, foi capaz de solidificar a amizade entre pessoas tão diferentes? O que dizer da oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, talentosas e humanas? Apenas uma coisa pode ser dita: o espetáculo não pode parar e THE BEST não são os musicais, mas sim cada um que lutou para esse sonho se tornar realidade.

Namastê, Rafa.

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Sexta-feira, Abril 28, 2006


"Para construir personagens, inspire-se no comportamento das pessoas no dia-a-dia e reflita sobre a natureza humana. Todos os enredos são criados com personagens que têm traços psicológicos comuns a todos os seres humanos: o amor, o ódio, a solidariedade e o desejo de conquista ou de vingança". As palavras são da dramaturga Marici Salomão, autora de peças sobre a literatura e a história brasileira. Marici Salomão, é formada em Jornalismo e escreve para teatro desde 1990. Atualmente, é integrante do Núcleo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral, o nosso conhecidíssimo CPT, coordenado por Antunes Filho. Em sua biografia, possui peças premiadas Como: Mixórdia, Maria Quitéria, O Anjo, Petruska, A Ilha do Tesouro, O Princípio do Avesso - Dom Casmurro e Divã.



Mas é sua saga de duas famílias conflitando no início do século XX, no bairro do Bom Retiro que provoca as lágrimas dos expectadores de Campinas, com o encantador Retiro dos Sonhos. O texto que narra alguns anos na vida de uma casa de italianos e outra de judeus, foi premiado no 1º Concurso de Dramaturgia do Teatro Popular do Sesi em 1995. Como ilustrado pelas palavras da própria Maraci, a beleza dos personagens, está na própria "natureza humana".



A Cia. CPFL de Teatro veio ao Centro de Convivências de Campinas para apresentar a terceira temporada de sua montagem e conta mais uma vez com a competente direção de Abílio Guedes, que em 2004 montou com o mesmo grupo a comédia Lisístrata. Dois anos se passaram desde que "A Greve dos Sexo" estreou no teatro do Espaço Cultural CPFL, o elenco amadureceu e encontrou atalhos valiosos na busca de uma verdade cênica. O resultado e mais uma vez de altíssima qualidade e requinte.



Retiro dos Sonhos fala sobre o amor, a esperança, as ilusões... os sonhos que todos temos e acredito que nos são de grande valia, afinal "são os sonhos que nos levam a frente" como dizem os próprios personagens. Uma versão do amor proibido entre dois jovens, que buscam encontrar um sentido para suas vidas, ao mesmo tempo que o bairro do Bom Retiro entrava em ebulição com a chegada dos imigrantes italianos e judeus. Um retrato nostálgico de uma cidade que ainda possuía uma inocência provinciana, misturada aos diferentes costumes e dialetos vindos de todos os cantos do mundo. Para quem tem descendência italiana, é um prato cheio. Cheio de macarronada com porpetas.



Na platéia, além das risadas e das lagrimas, foi possível ouvir que "finalmente Campinas apresenta algo de qualidade", na cena teatral. Comentário preciso que reforça os elogios feitos ao diretor Abílio Guedes, que encarou na sua melhor forma brechtiana, sequências inesquecíveis, que emocionaram não só quem assistia, mas o próprio elenco, que terminou a apresentação em lágrimas. Curiosas coincidências... em 2003 o elenco de Gota D'Água, espetáculo também dirigido por Abílio, porém com alunos do Conservatório Carlos Gomes, também terminou suas apresentações com lágrimas nos olhos e da platéia vinham os comentários que Campinas precisava de um espetáculo daquela beleza. Não é coincidência, mas sim uma comprovação de que o processo de criação de Abílio é envolvente e deixa marcas.



Para encerrar não posso deixar de comentar sobre o carnaval. Ahhh o carnaval. Sai da sala Luis Otávio Burnier cantando "O Pierrot apaixonado que chora pelo amor da Colombina..." é de uma simplicidade e leveza tão intensa, que nos transporta para uma festividade que não existe mais. Um verdadeiro resgate de uma cultura que deixou saudades para quem a viveu e ilusões para que apenas ouviu falar. A sina do Pierrot é chorar por Colombina e a nossa é aplaudir Retiro dos Sonhos.




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Sábado, Abril 15, 2006


Um texto forte e provocativo, a Via Sacra de Henri Ghéon é um intrigante espetáculo que envolve a platéia pelo seu tema épico e os convida a uma reflexão sobre suas atitudes e decisões cotidianas. Henri Ghéon, nasceu em 15 de março de 1875, na França e faleceu em 13 de junho de 1944. Além da Via Sacra escreveu Natal na Praça, baseadas em histórias bíblicas e na vida dos santos. O legado de seu texto está presente na nossa encenação da Via Sacra, que moderniza a visão cênica da morte de Jesus, sem deixar o conteúdo histórico em segundo plano, ou como apenas um pano de fundo.



A história embarca nós atores em uma experiência brechtiniana inigualável. Uma fantástica oportunidade de vivenciar as técnicas de Brecht. É possível dizer que o fundamental do pensamento deste método na peça, é o jogo das contradições. Elas aparecem nos assuntos sociais, na forma poética, na relação entre a obra e o público. Se quisermos também chamar nossa Via Sacra de teatro de realista, temos que lembrar que é um tipo de realismo que mostra o "teatro em sua realidade de teatro".



Essas são as vertentes que sustentam o espetáculo. Com uma concepção moderna, a direção de Amadeu Tilli buscou de nós atores a simplicidade. Tive a liberdade de criar meus próprios personagens, exercitando o distanciamento narrativo e me desdobrando entre personagens distintos, de Pilatos à soldado romano, de peregrino à Judeu, de Simão à Rafael. Porém sem nunca esquecer o combate brechtiniano, contra a captura emocional do público. Ghéon herdou de Brecht a descontinuidade, o que determinou sua preferência por uma via sacra dividida em quadros e não em atos contínuos. Contudo, a visão dialética sobre os elementos característicos da vida social estão muito presentes.



Mesmo com o antinaturalismo da peça - e nesse aspecto confiávamos na vanguarda estética - em cada apresentação, a platéia lutou contra o distanciamento emocional e... se emocionou. Não era para menos. Em plena semana santa, ambientada em igrejas cenicamente perfeitas - capazes de servirem de cenário para cada momento descritos por Ghéon - e embalados pelas belas músicas, o encontro com a platéia não foi apenas com as questões sociais que levamos ao placo, mas principalmente com a desumanidade das últimas horas de Jesus.



Confesso que na concepção de meus personagens Centuriões, busquei potencializar as maldade e brutalidade das falas e dos gestus. Busquei nesses recursos a preparação do sofrimento que Jesus estava vivendo, pois ao contrário de montagens como A Paixão de Cristo, que exploram o realismo dos castigos e da crucificação, a Via Sacra torna o drama pessoal da morte de Jesus de forma narrativa, ou seja, precisava impor para a platéia a realidade cênica que desenhávamos em cena.



No elenco, grande parte da beleza cênica está na trilha sonora interpretada ao vivo. No primeiro dia a cantora lírica Niza de Castro Tank, de prestígio internacional, junto de seu madrigal e nas outras três apresentações com a soprano Ciça Baradel, foi fundamental para a realização de todo o espetáculo, e um dos momentos mais marcantes, com o canto de Verônica. As músicas resgataram o sentimento de amor ao próximo, um exemplo a ser seguido sempre, não apenas na Semana Santa.



Além da alegria de dividir o palco com Niza de Castro Tank (a maior cantora lírica de sua geração) e com a Ciça (minha professora de canto durante o curso de teatro), a presença de Rubens Teixeira como o narrador, elevou a qualidade do espetáculo. Sua experiência e tranquilidade em cena, preparavam cada estação com a carga dramática necessária para preparar platéia e atores no que estava prestes a acontecer. três motivos em uma única peça, capazes de orgulho para qualquer ator em minha posição. Para completar o elenco, que já contava com a presença a quatro anos dos atores Marcos de Vuono, Fabiana Mello, Fernanda Campagnolli, eu me juntei aos meus amigos Tiago Gonçalvez e Thamy Quintanilha na tentativa de alcançar o mesmo prestígio que o grupo já havia conquistado nas temporadas anteriores.



No cenário, a criação do diretor foi mais uma vez a busca pela simplicidade. Apenas a Cruz servia de elemento cênico em meio a nós atores. E dentro das igrejas, a arte de Geraldo Jürgensen. O artista plástico campineiro pintou em 1982 as estações da via Sacra em 14 painéis (de sete metros quadrados cada um), da condenação de Cristo até a ressurreição. A conservação dos painéis é fruto da dedicação e amor ao teatro do diretor Amadeu Tilli. "Os painéis foram feitos, originalmente, para o espetáculo Paixão de Cristo, montado por mim no Teatro de Arena, em 1982", relembra Tilli, que teve mais do que uma relação profissional Jürgensen (de 1964 até a morte do artista plástico em 1993), uma relação de profundo respeito e amizade.




Boa Páscoa!

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Quinta-feira, Março 23, 2006


2006 mal começou e a cena teatral está a todo vapor em Campinas. Essa semana foi a vez de Daqui a Duzentos Anos, de Márcio Abreu, aqui no Sesc Campinas. A peça é o resultado de uma linda investigação com ênfase dada à palavra pelo brilhante Anton Tchekhov. O ator Luis Melo que recebeu o prêmio de melhor ator na última votação da Associação Paulista de Críticos de Arte divide o palco com André Coelho, Janja e a musicista Edith de Camargo. O trabalho de criação é do Ateliê de Criação Teatro de Curitiba, alias, a alguns meses vi uma entrevista dele no Jô Soares que mostrou cenas da preparação do espetáculo, no seu barracão no PR. Os contos escolhidos para essa montagem foram "O amor", "O caso do champanhe" e "A brincadeira". Apesar de terem temáticas distintas, transitam do lirismo ao humor sem perder o ritmo.

A peça trabalha com três contos que não fazem parte da obra dramatúrgica. 'Era importante que fôssemos à palavra não-teatralizada. Nosso propósito é imergir na narrativa na frente do público, navegar com o espectador nas palavras de Tchekhov e traduzir esse encantamento sem truques, sem a concorrência do elemento cênico. E no fundo isso é que é teatro: alguém que tem uma bela história para contar a outro alguém que ouve". Os textos falam do amor, da rotina e do inesperado da vida.



Tchekhov começou escrevendo narrativas curtas publicadas em jornais e revistas da época, escreveu contos e depois peças curtas até chegar, no período final de sua vida, a escrever as peças longas que o tornaram reconhecido como dramaturgo e que serviram como referência para a criação de um método para formar um novo ator, um novo teatro, calcado nas experiências de Stanislavski e do Teatro de Arte de Moscou. O retorno a essa fonte, base do teatro moderno, põe o público em contato com uma obra repleta de temas ainda hoje vivos e de questões estéticas e formais que se convertem em propostas e desafios para o trabalho do ator e a criação no teatro.

O conto "Brincadeira" é um texto de memória, no qual um homem recorda uma história de amor de juventude, quando descia de trenó uma montanha de gelo, junto com uma jovem que, seduzida, confundia sua voz com a voz do vento ao ouvir as palavras "eu te amo", um relato repleto de metáforas e lirismo. O conto "Veraneio" é uma história cômica, de enganos, quase uma comédia de erros. Um homem casado e de moral ilibada recebe uma carta de uma suposta mulher que quer marcar um encontro com ele às escondidas. A partir desse mote, todo um enredo de dúvidas, hesitações, desencontros e revelações descreve um episódio na vida de pessoas comuns numa cidade de veraneio.



A Concepção Cênica

Contar histórias na tentativa de deixar rastros e vestígios que comprovem que passamos por aqui. Estar no momento, no esforço de provocar algo que possa durar um pouco mais que um momento; gravar a voz em um gravador de rolo para que, quando a fala termine, algo fique para testemunhar de nós para os que virão, talvez daqui a duzentos anos, quando não existirmos mais. Tchekhov que escreveu milhares de cartas. Tchekhov que sempre insistiu que não deixaria marcas. Tchekhov, a quem interessava apenas contar histórias, histórias que hoje nos alimentam e desafiam, que nos revelam tanto de nós mesmos. Histórias que têm mais de cem anos. Histórias simples e profundas. Uma pessoa diante de outras e uma história para contar. Entre os dois, apenas a palavra. A busca pelo caminho mais simples, por uma palavra clara e compreensível, pelo entendimento da história, pelas imagens que se formam e se vão a cada instante.

Daqui a duzentos anos é uma idéia que se repete muitas vezes em seus textos. Que ressoa nas palavras do médico Astrov, personagem da peça Tio Vânia, que planta sementes numa floresta para que esta cresça, se multiplique e possa ser admirada por outras gerações, por pessoas que existirão depois dele. Ou nas discussões entre Verchinin e Tuzenbach, em As Três Irmãs. Um inconformado com sua própria realidade, almejando uma realidade futura, mesmo que ele não a conheça. E o segundo respondendo: "Daqui a mil anos o homem suspirará como hoje: "Ah! Como a vida é dura!"". Os personagens projetam uma vida ilusória num tempo inalcançável, são uma espécie de fantasmas à espera de uma vida um pouco menos tola.



Além de ser um espetáculo muito bonito e emocionante, tivemos o prazer no final de trocar umas palavrinhas com o elenco inteiro. Todos muito agradáveis, contaram um pouco do processo de criação e do envolvimento que a 1 ano estão com a peça. E assim foi mais uma boa noite de teatro em Campinas. Namastê!

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Domingo, Março 19, 2006


Êxodo 3,13-14 - Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: Eu Sou o que Sou.

No final de 2005, eu e Giselle Wauters iniciamos um trabalho corporal, tendo como linha de pesquisa o teatro pobre de Jerzy Grotowski. O conteúdo deste trabalho, foi o resultado do espetáculo Eu Sou o que Sou, onde eu e a Gi dividimos o palco com pensamentos imperfeitos e muitos traumas (nossos) interiores. No começo desta pesquisa, logo nos perguntamos: por que estamos sempre buscando uma compreensão analítica de tudo o que experimentamos? Será que ainda existe espaço para o sentimento bruto ou estamos presos a viver em um mundo de emoções mastigadas, onde o certo e o errado já são rotulados antes mesmo de sentirmos o seu sabor?

Enfim, o que era para ser um palco livre com a penas dois atores em cena, acabou tornando-se um palco lotado de emoções e percepções, que se misturavam entre o "Eu" do ator e o "Eu" da platéia. É impressionante, mas o ar fica realmente carregado por uma conexção entre o palco e a platéia.



O enredo de Eu Sou o que Sou é bastante simples. Conta a história do homem e sua relação com seu criador, uma visão Grotowskiana da criação do homem, dissecando todo o conteúdo social e moral dos textos já conhecidos e buscando exaustivamente a verdade cênica. Para contar essa passagem da história da humanidade, decidimos primeiro esquecer arquétipos conhecidos como Adão e Eva e passamos a representar "O Homem". Em cena, decidimos também esquecer uma interpretação "marcada" ou planejada. Deixamos que a emoção buscasse espaços dentro do corpo, levando membros, tronco e cabeça para onde bem entender.

A pesquisa de uma literatura sobre o assunto foi indispensável. Passamos do livro de Gênesis até fragmentos de Paraíso Perdido de Sérgio de Carvalho. Fomos cortando palavra por palavra, buscando contar "apenas" com o corpo o sofrimento da humanidade em seu legado de solidão e distanciamento entre as pessoas. Pensando neste desafio de trabalhar uma linguagem singular, encontramos recursos corporais para recriar uma ação física honesta com os sentimentos e emoções deste "Homem". O resultado deste mergulho visceral no processo de encontro com foi maior do que esperávamos. Nos deparamos com uma composição de diversos personagens. Era o ator despido das máscaras do cotidiano.



Após a criação de uma cena inteiramente silenciosa, as emoções encontraram voz em testos de Artaud e Sidarta Gautama, o Buda em um trabalho de pesquisa realizado por Abílio Guedes. Esses textos, potencializaram as cenas. Misturando passado e presente, história e lendas, em um sentimento (mais uma vez) de solidão e caos. A cenografia e iluminação, foram os complementos finais desta experiência corporal. Um vazio quase que completo no palco, sinalizando um chão em eterna construção.

Não tivemos a pretensão de esclarecer, afinal será um triunfo se conseguirmos atingir um questionamento, pois não podemos impor a verdade que existe em cada um. Assim, esta não é uma cena para ser compreendida... mas simplesmente, sentida. Ou, utilizando as palavras do próprio Grotowski: "não acredito em fórmulas. Sem querer cria-las, procuro descobrir leis objetivas no processo teatral, defendo contudo que cada qual deva criar seu próprio caminho de verificação e criação".



E por fim, esta é uma pesquisa que não termina aqui. O comprometimento com esse "Homem" não permite um final tão curto, pois muito mais ainda se tem para descobrir nesses poucos 50 minutos de solidão. Que outros caminhos ele ainda deve trilhar para quem sabe tocar definitivamente a origem deste seu caos? Isso só o tempo poderá responder. Mas com certeza iremos buscar essa compreensão juntos com quem estiver nos assistindo.

Plagiando mais uma vez as palavras de Grotowski, "a essência do teatro é um encontro (...) na minha vida, este é um momento crucial. O que é teatro, "técnica", metodologia, está ultrapassado para mim. O que há anos tendia em mim para outros horizontes, acaba de chegar ao auge. (...) já respiro outro ar. Meus pés já tocam outro solo e outro apelo aguilhoa os meus sentidos".



Eu Sou o que Sou
Orientação Cênica de Abílio Guedes
com Giselle Wauters e Rafael Santin

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Quarta-feira, Março 01, 2006


Demorei quase um ano para escrever sobre Prêt-à-Porter 7. Decidi escrever mesmo depois de tanto tempo sobre o trabalho do CPT - Centro de Pesquisa Teatral, por dois motivos: pela qualidade técnica ímpar no cenário teatral nacional e pelo trabalho exaustivo na figura do ator. Esqueça os grandes cenários, as produções milionárias, as máquinas de fumaça e os milhares de figurantes em cena. Estamos falando aqui de um teatro em que a riqueza está na simplicidade. Nada sobra, não há nenhum peso desnecessário. O ator se despe de recursos de apoio e simplesmente se expõe. E eles acertam em cheio.

O segredo está no trabalho longo e sério de pesquisa. Prêt-à-Porter 7 é uma etapa avançada de um trabalho que se desenvolve desde 1997. Naquele ano, o diretor Antunes Filho, no comando do CPT, um verdadeiro oásis de excelência no fazer teatral, deu uma guinada em seu trabalho, com a criação do projeto Prêt-à-Porter, o qual já tive o prazer de acompanhar desde a sua 5ª versão. Segundo nosso amigo Rubens Teixeira, com o fim da temporada de Drácula e Outros Vampiros, um portentoso espetáculo, cheio de cenários grandiosos, coreografias e numeroso elenco, Antunes resolveu dirigir seu olhar à busca do essencial. Ele sentiu que, em suas peças, os atores tinham o mesmo peso do cenário ou da iluminação, por exemplo. E não gostou do que viu. Aí nasceu o projeto.



No final de 2005, como parte das comemorações de 20 anos do LUME, fui assistir uma palestra de Antunes na Unicamp. O que ele cansou de dizer e repetir era exatamente isso: "O fundamental é o ator. Se não existir um ator de verdade em cena, não existe nada". A idéia do Prêt-à-Porter era botar o ator no centro das preocupações, a partir de um extenso e árduo trabalho fincado no naturalismo. Os (poucos) objetos que entrassem em cena deveriam revelar algo sobre aquelas personagens. Os atores-dramaturgos, com total independência, construíam uma gênese que desse conta de explicar, dar um sentido para tudo aquilo. As improvisações foram se elaborando e se transformando nas cenas. Mais uma vez, nada de sobras, nada fora do lugar. Estarei eternamente grato pela oportunidade que o LUME nos trouxe. Atualmente, apenas eles e o Espaço Cultural CPFL estão preocupados com a discussão teatral, como forma de elaboração cultural na nossa região.

Nessa 7ª versão, três histórias curtas, de cerca de 20 minutos cada. Castelos de areia mostra o reencontro de duas amigas de infância (as excelentes Juliana Galdino e Arieta Corrêa), conversando sobre o rumo que suas vidas tomaram. Desde 2004 eu e meu amigo Fábio Rodrigues estávamos aguardando essa cena das duas juntas. Chuva cai e bambu dorme traz a despedida de um meticuloso floricultor (Danesi) e uma jovem estudante (Nara Chaib Mendes), e evidencia o turbilhão de sentimentos que eles trazem em si. E A garota da internet mostra o encontro de Meg (novamente Arieta) e Hudson (Marcelo Szpektor) após um relacionamento por trás de uma tela de computador.



Mais que uma montagem de qualidade incontestável, Prêt-à-Porter 7 dialoga na medida em que nos mostra que um trabalho primoroso e a pureza de uma arte são sempre atuais. É nesta medida em que é um privilégio de assistir a um espetáculo como este. Saímos do teatro mais sensíveis, nos questionando, conhecendo um pouquinho mais a nós mesmos. Não é esta afinal a função do teatro?

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Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006


Todas as madrugadas, a Manhã que tinha a nobre missão de apagar as estrelas que a Noite acendia com medo da escuridão se atrasava. Tudo por causa do teimoso Vento que a seguia por toda à parte. Como adorava ouvir as histórias contadas pelo Vento, a Manhã se descuidava, o sol demorava a nascer, os relógios enlouqueciam e o mundo ficava numa grande confusão. Até que um dia, o Tempo, senhor todo poderoso, foi procurar a Manhã para uma conversa muito séria. Temendo que ele fosse demasiadamente severo com ela, a Manhã resolve confessar o motivo de tantas confusões: O Vento anda a me sussurrar docemente as mais belas e encantadoras histórias do mundo. Por isso, me distraio. Hoje mesmo contou-me uma história tão linda que me enterneceu o coração. Então a Manhã contou ao Tempo a bela história narrada pelo Vento:



Esse é o começo de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá. Em 1946, exilado na França, Jorge Amado escreveu, em homenagem ao primeiro aniversário do filho, a história que conta o amor de um gato por uma andorinha. Um dos poucos textos infantis escrito por Jorge Amado que, com sua delicadeza e simplicidade, comoveu e ainda comove gerações. Perdido durante 27 anos, o texto só foi publicado em 1976 com a exigência do autor de que nada fosse modificado nele. Agora, o diretor e adaptador Vladimir Capella, com a parceria de Cinta Abravanel, cenários de J. C. Serroni e direção musical de Dyonisio Moreno, profissionais reconhecidos em suas áreas e ganhadores dos principais prêmios do teatro brasileiro: SHELL, APCA, APETESP, entre outros, iniciam um encontro ímpar, ousado, que resulta na produção desse belíssimo espetáculo. Uma fábula que tematiza o amor impossível entre um gato e uma andorinha, predador e presa, que vivem cercados pelos preconceitos dos animais que habitam o mesmo parque.



A concepção dos personagens é belíssima. Aula de interpretação, cada animal/personagem possui seu gestus próprio. Ultrapassando a barreira entre teatrinho infantil e alcançando a plenitude de uma obra para todas as idades. Amanda Acosta, protagoniza com sutileza uma andorinha sensível, que allém de encantar com sua voz, mostra muito talento como atriz. Ao mesmo tempo que os atores dão um show com seus movimentos, o cenário surpreende a cada mudança de cena. Na fantasia de uma floresta, surgem cachoeiras, chuva de folhas, neve, água e tudo com a suavidade e delicadeza das mãos de Serroni. E para quem acha que esse espetáculo é só "produção", engana-se. O Equilíbrio entre a produção, os atores e a concepção cênica, são o ponto forte deste espetáculo, que em nenhum momento chateia as crianças e seus pais, embalados pelas belas músicas interpretadas com muita beleza e emoção. Não é a toa que no final, muitos dos atores, mesmo tendo interpretado inúmeras vezes a peça, estavam em lágrimas.



Ah... quer saber mais da história... Era tempo de primavera e as flores desabrochavam lindas e viçosas por toda a parte. Em um lugar, vivia com seus pais em uma comunidade grande e pacífica uma linda andorinha chamada Sinhá. Uma coisa, entretanto, perturbava a paz e a harmonia do local: o Gato Malhado. Todos o consideravam antipático, malcriado, folgazão, o que o transformava em uma permanente ameaça para a comunidade, principalmente para os pequenos filhotes dos animais. Somente Andorinha Sinhá não temia o Gato Malhado. Achava-o rabugento e preguiçoso, mas não acreditava em todas as coisas ruins que eram atribuídas a ele. A cada dia que se passava, Andorinha Sinhá ficava mais curiosa a respeito do vizinho até que resolveu espiá-lo. O Gato, surpreso com a ousadia da vizinha, tentou assustá-la, mas Sinhá não se incomodou. Depois de um tempo se entreolhando assustados, começaram a conversar e se esqueceram das rivalidades. Por vários dias, a história se repetiu e, sem que percebessem, algo mais começou a nascer daquela amizade... os corações dos dois ficavam ansiosos por novos encontros. Os vizinhos, chocados com o comportamento da jovem Andorinha, resolveram interferir tentando convencê-la de que felinos e pássaros sempre foram e serão predador e presa por natureza. A partir daí, muitas emoções, conflitos e desencontros marcarão a vida do singelo casal, pois o espetáculo O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é uma linda história de amor que arrebatará os corações de todos que o assistirem.

Recomendado para crianças a partir de 7 aos 90 anos de idade.

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Sexta-feira, Novembro 18, 2005


Duas colheres de Brasil e um pouco de teatro. Isto tudo é Café com Queijo!
por Tiago Gonçalves

O fogão a lenha foi aceso, a água fria cai na chaleira. Tempo vai, tempo vem. Um tiquinho de prosa ali, outro acolá. O primeiro borbulho salta, quenta água, quenta água! O espetáculo já vai começar, as visitas não podem esperar. Lá no fundo do barracão se escuita vozes, vixe quem ta lá? Tão os inúmeros brasis, Brasil caboclo, Brasil sertão, Brasil bombacha, Brasil pantaneiro, Brasil passarim, Brasil lá do cu do Judas. Meu país Café com Queijo! Um causo ao pé do fogo, uma estória marvada. Oxe, escuita o som da sanfona, da viola e do pandeiro. Um modão bem brasileiro. Oxe, a água quase que se avapora tudim! Tira do fogo meu fio, põe o café pra coar! Ande, ande veja quanta gente linda desse meu país. O velho Teotônio, quantos derrames hein? A Dona Gorda, recorda os tempos de boêmia! Meus Deus, Dona Chorona, pare de choramingar! Coitadim de Maroquinha, vive suzinha a se lamentar! Vossa Mercê, Uai, Oxente, Oxe, Ara, Tchê, Bah!!! Nossa cultura desenterrada na prosódia e nos cantos dos atores do grupo teatral Lume. Tião, Maricota, Tiana, Zé, Tonho, Justino, Angélica, Bosco, Neto, quanta gente! Ilustres sobreviventes do Brasil representadas e revisitadas por quatro artistas: Renato, Jesser, Ana, Raquel. Uma cultura desenterrada, um sotaque descoberto, uma gíria resgatada. Entoncê, cadê aquele versinho? Meu filho você se alembra, vai...rasga...

Eu tava deitado na cama
Naquele sono primeiro
A pulga me deu um coice
Me tirou do travesseiro
Mas eu tinha dois cachorro
Chamado Ferro e Ferreiro
Tasquei o cachorro na pulga
A bicha saiu pro terreiro
Tirei o coro da pulga
Fui vende pro sapateiro




Que boniteza, que mior de bão! Escuita, escuita... a estória do Lobisome e da Mula sem cabeça! Em plena Coresma, ai que medo! O café já ta coado, simbora ralar o queijo. Queijo fresco, queijo branco... vai ralando, a mesa eu vou colocar. Ta coado, prontinho pra servir. Hum... que mistura é essa? Brasil com Brasil. Teatro com vida. Técnica com subjetividade. Duas colheres e um pouco de café. Isto tudo é Café com Queijo! É sentir o cheiro de mofo do nosso antepassado, o aroma da culinária, o som das festas típicas, o respeito pelas pessoas. É tirar meus brasis da gaveta! Salve, salve meu país... tão grande, tão lindo, tão gigantesco... mas, que cabe em um barracão de retalhos nos confins de Barão Geraldo!



Tiago Gonçalves
tjgoncalves@hotmail.com
Jornalista e Ator

Ficha Técnica
Elenco: Ana Cristina Colla, Jesser Sebastião de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini
Concepção da Iluminação: Abel Saavedra
Concepção dos Figurinos: Fernando Grecco
Costura e Concepção das Rotundas de Retalhos: Nair Barbosa Pinto
Costura dos Figurinos: Carmem Castanho
Apoio Musical: Ivan Vilela e Kai Bredholt
Criação e Concepção: Ana Cristina Colla, Jesser Sebastião de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini
Produção: LUME

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Segunda-feira, Novembro 14, 2005


Você já ouviu falar de James Thierrée? Imagino que não. Pois é bom ir se acostumando com esse nome. Thierrée é neto de Charles Chaplin e assim como seu avô, parece que irá reinventar a arte da cena, mas desta vez nos palcos de teatro. Ele nasceu em 1975 na Suíça, tem algumas participações em produções para o cinema, como "Eclipse de uma Paixão", "Vatel" e "O Cavaleiro Vingador" (tenho os 3 filmes em casa, mas não empresto) e além do lirismo que traz consigo no próprio sangue, absorveu muito das técnicas de encenação propostas por Ariane Mnouchkine (pra quem me conhece, eu sempre ando com uma camiseta que tem a foto dela ao lado de Stanislavski, Artaud e Brecht), pesquisadora e diretora do Thêátre du Soleil.

Ok Rafael, o cara é neto do Carlitos, fez umas aparições em uns filminhos aqui outros ali, é contemporâneo e aprendiz de uma das maiores encenadoras de seu tempo, mas... o que ele já realizou de tão especial? A resposta é Bright Abyss (Abismo Luminoso). Acrobacias, contorcionismo, dança, mímica, música, teatro e humor dão forma ao espetáculo mágico e fantástico dirigido pelo neto do genial cineasta e comediante.



Sua apresentação na Brooklyn Academy of Music marca a estréia nos Estados Unidos de Thierrée e sua companhia, a Compagnie du Hanneton, integrada por um acrobata brasileiro, Thiago Martins, um dançarino sueco, Niklas Ek, uma vocalista e pianista espanhola, Uma Ysamat e uma contorcionista francesa, Raphaëlle Boitel. Bright Abyss é um espetáculo que foge às classificações, começa e termina com a cena lírica de um naufrágio, em que Thierrée entra empunhando ancinhos que simulam espadas e montado em escadas extensíveis transformadas em pernas de pau. O vento sopra furiosamente e os personagens em cena começam uma
viagem de sobrevivência de 90 minutos de duração, em que não faltam situações cômicas e, ao mesmo tempo, sombrias, imagens poéticas e surrealistas.

O palco é composto por móveis antigos e objetos cotidianos que pouco a pouco ganham vida ao se tornarem animais e criaturas de um conto infantil, ou ao serem usados em jogos e acrobacias que desafiam a gravidade. Com uma assombrosa versatilidade, os artistas de apresentam o tradicional "vaudeville" (o Tiago Mineiro pode explicar melhor o que é isso para vocês), mas sutil e habilmente disfarçado, do qual Thierrée e seus pais, Victoria Chaplin e Jean-Baptiste Thierrée, são pioneiros.



A rotina de contorção se desenvolve em um enorme portal de metal estilo barroco, enquanto as acrobacias acontecem tanto no chão como no ar, em exercícios de capoeira ou em trapézios que oscilam de um lado a outro em meio à catástrofe. A mímica e o humor se manifestam em uma tentativa de suicídio que pode literalmente retroceder no tempo, em um sofá que engole pessoas, no maestro de uma orquestra de gemidos e espirros e, como Chaplin, na complicada leitura de um jornal. O magnetismo, a destreza para entreter e a aparência física de Thierrée - a forma de sua cabeça, seu olhar romântico e inocente, sua estatura compacta e seu cabelo cacheado - evocam seu avô.

Thierrée estreou como artista aos quatro anos e, após desenvolver habilidades como acrobata, dançarino, trapezista e violinista, se envolveu totalmente nos espetáculos criados por seus pais para a companhia Le Cirque Imaginaire, que depois passaria a se chamar Le Cirque Invisible. Também merece crédito por sua humildade e por deixar que o protagonista seja o espetáculo, isto é, por colocar o virtuosismo e o talento dos artistas a serviço da experiência multissensória. Como autor e diretor da obra, que se apresentará no México no fim deste mês, Thierrée constrói uma história universal e isenta de uma única narrativa. O espetáculo comunica com a linguagem do corpo, o movimento, as sensações e a expressão. Thierrée e sua companhia de circo-teatro, estabelecida em Paris, fazem a imaginação do espectador voar com gestos simples e a mais honesta das intenções, algo cada vez mais raro de experimentar em nossos tempos de reality shows.



Se uma vez Chaplin foi responsável por uma revolução na arte contemporânea, talvez tenha chegado a hora de Thierrée dar a sua contribuição na magia da encenação. Para muitos (e eu infelizmente me incluo nesta lista), Bright Abyss só será visto graças a magia do DVD, mas talvez seus conceitos e propostas, sejam multiplicadas por muitas e muitas salas e palcos do mundo inteiro e quem sabe um dia, sua luz também poderá iluminar nossas humildes mentes criadoras. Amém!

Namastê, Rafa!

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Domingo, Novembro 13, 2005


" Um espetáculo teatral do qual o espectador sai transformado. Mais do que uma testemunha, quem assiste a Cnossos, com o ator Ricardo Puccetti... não fica imune às energias e emoções transmitidas pelo ator... " (Carlota Cafiero).

O nome cnossos é uma referência mitológica ao labirinto da cidade grega de Creta, construído por Dédalo, onde viveu a figura do Minotauro. Luis Otávio Burnier (1956-1995) e Ricardo Puccetti, apresentam no espetáculo Cnossos, a busca de um homem que mergulha dentro de sua mitologia pessoal e percorre os corredores desse labirinto na tentativa de encontrar saídas. No caminho ele esbarra em imagens, lugares, pessoas esquecidas e pálidas sensações que emergem das profundezas de sua memória. Nessa visão perturbadora, com a marca e a assinatura de qualidade do Grupo Lume, o espetáculo ´faz parte das festividades de 20 anos de sucessos desta trupe e é um poema sobre a solidão humana, as impressões de uma pessoa aprisionada no labirinto da memória, um mergulho em busca dos sonhos e pesadelos que povoam nosso ser.

No belíssimo trabalho de pesquisa, encontramos a busca de uma técnica pessoal de representação com a inspiração encontrada em mestres como Jorge Luís Borges, Lautrèamont, Kafka e Mário Quintana. Cnossos é um evento a ser instintivamente compartilhado entre platéia e ator. É possível sentir uma pitada de Artaud e seu duplo em cena. Mais motivos e méritos para o ator, que por cerca de 60 minutos não deixa ninguém piscar os olhos.

A apresentação teve todo um clima especial para compor a magia do espetáculo. Em uma noite bastante fria e com os espectadores sob o céu aberto o início da sessão, no meio dos barracões da estação ferroviária de Campinas, lá estava eu no meio de pessoas digamos "um pouco assustadas" com o inusitado lugar da apresentação. Mas o sorriso era claramente visível em todos, afinal, era nítido que algo grande estava para acontecer. De repente começa uma música muito alta vindo dos fundos da estação. Começamos a nos aproximar de um barracão abandonado e pelas janelas com os vidros quebrados, já era possível ver o ator Ricardo Puccetti em cena.

O barracão quase em ruínas não tinha nenhuma luz acesa. Apenas a iluminação sobre o ator permitia as pessoas ter uma pequena noção de como procurar o melhor lugar para sentar na rústica arquibancada de madeira. Com a música estridente e agora mais alta nos ouvidos, a concentração obrigatoriamente estava voltada para a excelente concepção de personagem criada por Puccetti. Que cena belíssima. Excelente produção do Lume, chefiada pelo produtor Pedro de Freitas. Simples, mas tocante. O resto... só assistindo mesmo para compreender.



Namastê, Rafa.

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Webmaster: Rafael Santin - Estréia, 16 de novembro de 2003 S
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